Amanda Alboino*
As palavras “jovem”, “periferia” e “assassinato” na mesma frase já não causam mais impacto ao leitor. A chamada aparece no jornal como um eterno déjà vu, sem que nos sintamos sensibilizados com a tragédia anunciada. Não a consideramos sequer tragédias, mas mera fatalidade. Tal violência não surpreende nem mais os parentes da vítima, que, muitas das vezes, apenas choram a perda do ente querido já que não acreditam na justiça para os cidadãos pobres e negros deste país.
Quando a justiça é clamada nas ruas, através de passeatas ou alvoroços, e a mídia dá a notícia, a polícia é cobrada para tomar parte do caso, o governador é acusado de não investir na segurança pública e alguém do partido da oposição aproveita para alfinetar os concorrentes políticos. Nos dois meses seguintes, mesmo sem ter sido apurado, o caso é arquivado e etiquetado como acerto de contas com traficantes ou vingança e fica por isso mesmo. Até o dia em que surge uma nova “comoção nacional” para recomeçar o circo da impunidade.
Como bem se expressou Aurilene Vidal, articuladora da Pastoral do Menor, na reportagem “Acerto de contas ou descaso?” (Diário do Nordeste) do último domingo (28): “O que motiva o crime é quase sempre o tráfico, o uso de drogas ou acerto de contas entre adolescentes. Como eles são vistos como um problema, nada mais cômodo que os próprios se destruam. Assim o Estado não precisa investir em ações concretas que possam modificar suas vidas”. Apesar de preocupante, a declaração de Aurilene não chega ao exagero.
Mas nem só de tráfico vive a violência contra as pessoas de baixa renda. Muitas vezes os Boletins de Ocorrência relatando ameaças de morte por colegas na escola, por parentes ou mesmo denúncias contra algum posto de saúde da região em péssimas condições de atendimento são sumariamente esquecidos dentro de uma gaveta. A falta de apuração dessas denúncias também é um crime. Crime contra o cidadão que paga impostos desde o gás que cozinha o ralo desjejum até a condução que toma todos os dias para sua labuta diária.
Isoladamente, investimentos em segurança pública pouco poderão contribuir para reverter esse quadro. Num mundo onde se nasce e se vive cercado por ignorância, atitudes violentas e preconceito com classe social e cor, as perspectivas de uma pessoa se reduzem a simplesmente matar a fome para continuar vivo. Por isso vemos essas mães que incentivam os filhos a deixarem as escolas para cometer furtos ou, no melhor dos casos, jovens que querem terminar os estudos do ensino fundamental apenas para conseguir um emprego de baixa remuneração.
A descrença em relação ao futuro dessas pessoas já parte do próprio Estado. Tratar um problema social com medidas paliativas e empurrar o problema para o outro mandato demonstra, no mínimo, uma falta de respeito aos direitos do povo. Enquanto esperamos a boa vontade de nossos governantes, a justiça e a educação só sendo efetivas apenas para quem as podem pagar engrossam as estatísticas de marginalizados do país. A nós só resta acompanhar a melodia de Renato Russo: “Que país é esse?”.
*Aluna do 5º Semestre do curso de Jornalismo da disciplina de Impresso II
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As palavras “jovem”, “periferia” e “assassinato” na mesma frase já não causam mais impacto ao leitor. A chamada aparece no jornal como um eterno déjà vu, sem que nos sintamos sensibilizados com a tragédia anunciada. Não a consideramos sequer tragédias, mas mera fatalidade. Tal violência não surpreende nem mais os parentes da vítima, que, muitas das vezes, apenas choram a perda do ente querido já que não acreditam na justiça para os cidadãos pobres e negros deste país.
Quando a justiça é clamada nas ruas, através de passeatas ou alvoroços, e a mídia dá a notícia, a polícia é cobrada para tomar parte do caso, o governador é acusado de não investir na segurança pública e alguém do partido da oposição aproveita para alfinetar os concorrentes políticos. Nos dois meses seguintes, mesmo sem ter sido apurado, o caso é arquivado e etiquetado como acerto de contas com traficantes ou vingança e fica por isso mesmo. Até o dia em que surge uma nova “comoção nacional” para recomeçar o circo da impunidade.
Como bem se expressou Aurilene Vidal, articuladora da Pastoral do Menor, na reportagem “Acerto de contas ou descaso?” (Diário do Nordeste) do último domingo (28): “O que motiva o crime é quase sempre o tráfico, o uso de drogas ou acerto de contas entre adolescentes. Como eles são vistos como um problema, nada mais cômodo que os próprios se destruam. Assim o Estado não precisa investir em ações concretas que possam modificar suas vidas”. Apesar de preocupante, a declaração de Aurilene não chega ao exagero.
Mas nem só de tráfico vive a violência contra as pessoas de baixa renda. Muitas vezes os Boletins de Ocorrência relatando ameaças de morte por colegas na escola, por parentes ou mesmo denúncias contra algum posto de saúde da região em péssimas condições de atendimento são sumariamente esquecidos dentro de uma gaveta. A falta de apuração dessas denúncias também é um crime. Crime contra o cidadão que paga impostos desde o gás que cozinha o ralo desjejum até a condução que toma todos os dias para sua labuta diária.
Isoladamente, investimentos em segurança pública pouco poderão contribuir para reverter esse quadro. Num mundo onde se nasce e se vive cercado por ignorância, atitudes violentas e preconceito com classe social e cor, as perspectivas de uma pessoa se reduzem a simplesmente matar a fome para continuar vivo. Por isso vemos essas mães que incentivam os filhos a deixarem as escolas para cometer furtos ou, no melhor dos casos, jovens que querem terminar os estudos do ensino fundamental apenas para conseguir um emprego de baixa remuneração.
A descrença em relação ao futuro dessas pessoas já parte do próprio Estado. Tratar um problema social com medidas paliativas e empurrar o problema para o outro mandato demonstra, no mínimo, uma falta de respeito aos direitos do povo. Enquanto esperamos a boa vontade de nossos governantes, a justiça e a educação só sendo efetivas apenas para quem as podem pagar engrossam as estatísticas de marginalizados do país. A nós só resta acompanhar a melodia de Renato Russo: “Que país é esse?”.
*Aluna do 5º Semestre do curso de Jornalismo da disciplina de Impresso II




